Jornada Internacional CgT 2022

Dos Bastidores ao Palco – Vozes femininas da Gestalt-terapia

Por Sandra Salomão

Reflexões sobre a formação de uma terapeuta – Questões disparadoras para a mesa redonda na jornada internacional de 2022, Rio de Janeiro, Brasil.

A motivação para colocar este tema no palco desta jornada, se deu pela seriedade com que me envolvi e ainda estou envolvida nos processos de forma – ação. Também me traz ao palco a relevância desta missão pessoal, familiar e social, na paixão e namoro com essa prática de formadora, que comecei aos 27 anos, como assistente e até hoje não foi finalizada.

 O ofício de formadora se funde e confunde com o compromisso feito aos 22 anos com o meu desenvolvimento emocional, técnico e ético. Este processo de busca pessoal se transformou logo em uma trajetória profissional que mesclava aprendizado e aprofundamento no trabalho emocional com o compartilhamento e a transmissão para outros psicólogos e aprendizes. É assim que reconheço meu percurso, enquanto aprendia, fazia o compartilhamento com meus alunos e formandos de todo o encantamento e riqueza que absorvia nos muitos processos formativos que realizei durante a minha viagem chamada vida profissional.

Há um grande investimento de tempo, energia, reflexão e de dinheiro que faço no contínuo ofício de ser formadora. Com o amadurecimento compreendi que as  forma-ações são formas artesanais de ser e fazer, que nossa arte se transmite, e as pessoas é que aprendem.  

A formação de Gestalt-terapeutas, é um processo sagrado de descoberta e dedicação. Primeiro a descoberta, desde que as pessoas iniciam as disciplinas e o estágio na faculdade, depois o aprofundamento, durante o ciclo de um “curso”, melhor nomear como percurso de formação e, finalmente, o contínuo e  infinito hábito de se dar mais e mais novas formas-ações.

A psicologia, a psicoterapia, a Gestalt-terapia, o ensino universitário e o processo de capacitação profissional de um instituto formador são compreendidos por mim, como um processo continuado, meu e das pessoas que tenho acompanhado e que me acompanham na vida. Se fundem com minha história de vida pessoal. Uma unidade.

O modelo de formação que defendo e pratico é baseado no auto conhecimento e no treinamento através da experiência prática observada e supervisionada. Uma vez realizado um atendimento assistido por outros alunos ou formandos, se segue a troca de reflexões nos grupos de formação e nos estágios básicos. Com papéis distribuídos entre terapeuta, cliente e observador, aprendizes discutem a vivência feita e desenvolvem uma reflexão sobre a psicoterapia. A linha seguida é o aprofundamento do auto conhecimento e desenvolvimento de autonomia emocional e se integra com teoria,  com os exercícios e as práticas técnicas. A trajetória de se tornar terapeuta é guiada pelo crescimento da awareness do seu processo de desenvolvimento pessoal e da contínua construção da identidade do como ser terapeuta.

Os norte-americanos preferem o termo treinamento, o que nunca me agradou, porque me lembra adestramento. Poderíamos chamar então de capacitação, o que me soa muito tecnológico. Especialização, me parece restritivo e seletivo, então, o processo formativo ou melhor dizendo transformativo de uma formação, acaba me agradando mais, porque é a ação de dar forma. Dar forma à ação, formar a ação.   

Convivi no passado com grandes mestres da Gestalt-terapia e me relaciono atualmente com muito formadores. No CgT, na troca com minhas parceiras, parceiros e parceires e pelo mundo afora. Ser formador, não é ser professor, não é ser terapeuta, não é ser supervisor, é a integração de tudo na função artesanal da transmissão e do saber deixar nascer. Como a parceira Leo me lembrou, o todo é mais do que a soma das partes.

 A formação, como o tripé que assumimos integrar no CgT e a ambiência terapêutica,  é fruto do meu entendimento pessoal e de tudo o que aprendi pelo mundo da Gestalt-terapia: a formação de um terapeuta é um processo contínuo. E de troca com a diversidade, com outros mestres e colegas. Mas, fundamentalmente, aprendi a aprender. O que aconteceu com a minha formação contínua, é o que provoco como formadora: fundamentalmente procure sem economia  pelo auto conhecimento emocional.

No início, tudo o que procurei foi por conta da minha fragilidade, de medo diante da responsabilidade da profissão e da minha vulnerabilidade. A coragem de arriscar me orientou para o conhecimento da técnica e da teoria, da prática acompanhada pela supervisão, e para escutar, de tempos em tempos, os mantras e os sábios da Gestalt-terapia. Acreditar na saúde, na experiência, no campo, no fenômeno, no ajustamento criativo. Viver a Gestalt como uma filosofia de vida, não como um método de atendimento.

 Mas isso ainda é pouco. Uma forma – ação é um processo de transformação profunda – tornar-se quem se é, para ser aquele que virá a ser.

Eu penso que há uma identidade de formador – daquele que forma a dor, onde o interesse genuíno no crescimento do formando é fundamental. Atravessamos juntos uma jornada de desenvolvimento desde o nascimento ao crescimento do Gestalt-terapeuta. Me lembrei agora de minha tradição ancestral, de minha bisavó materna, parteira, ao me pensar diante de tantos grupos e turmas. E da avó professora e diretora de escola.

Acompanhei já a dor do nascimento, do crescimento, do desenvolvimento e do voo para a maturidade da vida profissional e pessoal de muitos Gestalt-terapeutas. Tenho como instrumento, o meu próprio parto, a minha primeira formação, e todos os demais processos de formação/gestação e parto pelos quais iniciei tantos novos passos. Parto, partir. Ser passagem e passageira. Na identidade do formador estão marcados os seus trabalhos terapêuticos pessoais, o domínio desta e de muitas abordagens, saber ser um guia em pedagogia existencial: não ser professor e nem mentor, mas orientar e ensinar. Humildade, paciência, admiração pelo processo do outro, profundo interesse e satisfação em ser testemunha participante do crescimento do formando. Formannnnndo.

Um programa de formação deve contemplar a história, as bases filosóficas, antropológicas e psicológicas da GT, a teoria da Psicologia da Gestalt, a teoria organísmica, o mundo social e a cultura, o método fenomenológico, o experimento e técnicas, relação terapêutica dialógica, a ética, a abordagem de todas as formas de sofrimento humano, uma visão ampla das diferentes abordagens clínicas, os princípios da Gestalt-terapia, sua visão de homem, mundo e saúde, mas, principalmente, um consistente programa integrado entre o autoconhecimento, a teoria, as técnicas, e fundamentalmente, a arte. A arte de ser criativo, a arte como arte. Como bem afirma Zinker, em seu livro In Search of the Good Form, a Gestalt-terapia é uma arte, é tecnologia e é ciência.

A marca do Cgt Sandra Salomão é a aprendizagem pela prática e pela reflexão das complexas experiências vividas nos grupos de formação, na experiência na terapia formativa e na supervisão. Desde aquele sábado de outono, em 1981, na sala útero – formação, no qual que me expressei em um desenho, aos 24 anos, como um ovo quebrado e um pintinho a olhar para o mundo, com o corpo meio dentro, meio fora, construí uma longa estrada repleta de eventos chamados vida. Me casei, tive uma filha, fiz mestrado, viajei, estudei fora, conheci pessoas, organizei festas, congressos, trabalhos, escrevi, joguei frescobol, vôlei e beach tennis, mudei de casa 4 vezes, fiz amigos, meus pais morreram, minha sogra, minha filha também. Minha irmã viajou pra alhures, meus sobrinhos voltaram para o Brasil, se casaram, tiveram filhos, eu trabalhei na universidade, fora do Brasil, fundei um instituto formador. Tem muitos mais eventos, mas deixa para outro texto.

Para finalizar: me formei para ser psicóloga, me tornei Gestalt-terapeuta, terapeuta de família, mas, além deste desafia - dor e fantástico ofício, vivo a incrível tarefa de dar à luz a tantos outros Gestalt- terapeutas.

Amém.